Golpe de Vista

Pedro Correia – O “Negro” na sua primeira aventura em África


No dia 26 de Novembro, Pedro Correia completa quatro meses de um novo capítulo na sua vida profissional. Também pela primeira vez festejou o seu aniversário – a 22 de Novembro completou quarenta anos –  longe dos familiares e amigos, pelo que esta é a data ideal para publicar a conversa tida com o treinador de guarda redes da selecção do Gabão. O “Negro” como era conhecido pelos colegas, abre-nos a janela da sua nova vida…

pedro com sousa

 

Pedro com Manuel Sousa

 

Golpe de Vista(GDV)– Porquê esta mudança na tua carreira?

Pedro Correia (PC)– Foi uma proposta que surgiu, muito aliciante profissionalmente e decidi arriscar. É a primeira aventura fora do ninho, mas são opções. Trabalho com uma equipa técnica que já conhecia pelo que o risco é menor.

GDV –  Que África encontraste?

PC – É África pura. Há muitos caminhos em terra, e os que são asfaltados tem buracos enormes. Só quem vive junto à Marginal vive bem. No fundo é a imagem que temos de África.

GDV  – Onde estás instalado?

PC – Vivemos dois meses num hotel e agora dividimos, os cinco, uma casa onde temos todas as comodidades. Foi uma decisão nossa partilhar a casa, visto que não temos lá as famílias.

GDV – Já deu para fazer uns passeios para conhecer a paisagem?

PC – O Gabão tem zonas naturais muito bonitas, mas confesso que é difícil abandonar-mos a nossa zona de conforto.

GDV – Qual é o vosso trabalho diário?

PC – Diariamente,  e porque a maior parte dos nossos jogadores joga na Europa, passamos muito tempo a ver vídeos de jogos.

GDV – O apuramento para a CAN era o principal objetivo?

PC – A CAN no inicio nem sequer era um objetivo. É um contrato de dois anos.. Fomos contratados para formar e criar condições para poder estar no mundial.

 

GDV – E o campeonato local, como é ?

PC – É composto por 16 equipas, mas atualmente está parado – há cinco meses – por questões organizativas.

GDV –  E como conseguem ter uma equipa competitiva?

PC – Temos vários jogadores que jogam pelo Gabão que o fazem devido ás raízes familiares.

Dos 23 convocados apenas 3 jogam no Gabão. Os outros andam espalhados pela Europa, desde França, Inglaterra, Bélgica, Espanha… Como são quase todos muito jovens alguns jogam em equipas B. O Otoo, do Sporting Braga B é um desses casos.

GDV –  A estrela do Gabão é o Aubameyang. Tem tiques de vedeta?

PC –  O Pierre Aubameyang é muito humilde. Ele nasceu e foi criado na Europa e tem essa cultura.

GDV –  O apuramento para a CAN foi uma surpresa?

PC – Era um grupo muito complicado com dois favoritos: Angola e Burkina Faso, que é só vice campeã em título. É a 3ª vez que o Gabão se apura. Mas fomos vendo que tínhamos capacidade para ombrear com os favoritos e felizmente conseguimos este objetivo. Este apuramento é muito importante para o futebol do país.

GDV – O povo do Gabão é entusiasta?

PC – Sim. Cria grande ambiente nos jogos. Nós jogamos na capital, Liberville, num estádio com capacidade para 40 000 pessoas. Sempre cheio!

GDV –  O ébola preocupa? Alterou as vossas rotinas ?

PC – Preocupa sempre. A única alteração visível é que nos voos começaram a medir-nos a temperatura à chegada. Aconteceu no Gabão e no Burkina Faso. Curiosamente, nesta viagem, em Marrocos não fizeram nada, e em Lisboa e no Porto também não. Sente-se mais preocupação em África que na Europa.

 

 

GDV – Surpreende-te este inicio de época do Paços?

PC – Sinceramente não. Já conhecia o valor da equipa técnica e de grande parte do plantel. O início era importante. Quando se começa bem tudo sai melhor.

 

GDV –  Na época passada as coisas começaram logo mal…

PC – Foi uma época atípica. Se calhar pensamos que já éramos mais do que a realidade e quando “acordamos”…

Penso que houve uma mudança geral de atitude. Até dos próprios adeptos que começaram a exigir muito mais de nós. De repente, tínhamos que ganhar todos os jogos.

Esta temporada isso não acontece e nota-se que a equipa respira saúde.

GDV – Que opinião tens dos guarda redes que subiram a seniores nos anos mais recentes?

PC – O Paulo Freitas cresceu comigo.Foi um trabalho de base. O Marco apenas trabalhei com ele na época passada e mostrou ter grandes capacidades. Conheço por isso, melhor o Freitas. Acho que pode chegar à 1ª divisão.

pedro correia

Formar guarda redes. A grande paixão de Pedro Correia

 

 

GDV  – O que tem sido feito para apostar cada vez mais nos jovens guarda redes?

PC – Quando fiquei responsável pela formação de guarda redes, a minha preocupação foi colocar o guarda redes dos juniores como terceiro  guarda redes dos seniores. Mas na 1ª divisão não é fácil, chegares com 18 anos e jogares. Tudo leva o seu tempo. É preciso subir degrau a degrau.

 

GDV – No futebol português tem sido difícil encontrar grandes guarda redes…

PC – Estamos a pagar a factura de, durante anos, não termos trabalhado esse aspeto. O Brasil, há vinte anos só tinha um guarda redes na Europa – Taffarel- mas fizeram um trabalho de base e agora têm guarda redes em tudo quanto é sítio. Em Portugal só há poucos anos, os clubes se capacitaram de que esta é uma área importante. Daqui a uns anos vamos ter resultados desta aposta.

 

GDV – Qual o aspeto mais importante na captação de guarda redes? A estatura?

PC – Devido ás exigências do futebol actual, a estatura é muito importante. Logo de base, devemos tentar perceber qual a estatura que um miúdo pode atingir. Quer queiramos quer não, hoje, um guarda redes com a minha altura (1, 82) dificilmente consegue singrar.

 

GDV – Se voltássemos atrás, tomavas a mesma decisão de ir para esta aventura?

PC – Assinava, embora com muita pena minha, pois tive que abandonar o meu clube de sempre. Foi uma decisão muito difícil de tomar. Foram 32 anos a entrar na mesma porta. Tenho mais de metade da história do clube.

Pedro treino

Pedro nasceu para o futebol aos 8 anos no Paços e saiu quase com quarenta…

 

GDV – Pensas um dia regressar ao Paços?

PC-   Penso que sim. A minha postura foi sempre uma postura séria, e isso foi reconhecido pela direcção, quando lhes coloquei a possibilidade de sair. Por isso penso ter deixado portas abertas e quem sabe um dia esse regresso não se torna real.

Image courtesy of Joaquim Jorge | Golpe de Vista

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