Golpe de Vista

Memórias de um pai babado


 

Chegou à Mata Real aos 17 anos e foi com a camisola do Paços que se fez homem. Uma saída pela porta pequena, treze anos depois, abriram uma ferida profunda mas não apagou um amor que cresceu com gotas de suor.

Pedro Monteiro, jogador de 22 anos, foi cedido pelo Sporting de Braga ao Paços de Ferreira, regressando ao local onde deu os primeiros pontapés na bola. Esta contratação dos castores funcionou também como o sinal de partida para uma viagem no tempo, outro Pedro Monteiro, o pai, que durante mais de uma década deu “tudo pelo Paços”. Aos 49 anos o actual técnico do Mirandela, do Campeonato de Portugal, viaja no tempo à boleia de “um orgulho enorme” que sentiu quando soube da boa nova. Recorda a mocidade dos seus 17 anos à chegada à Mata Real onde quase tudo mudou desde então, a começar pelo nome. “ Sim, ainda era a Mata Real “ recorda, “ mas era menos de metade do que é hoje. O campo de treinos que existia era pelado, só havia uma bancada coberta. Hoje o clube cresceu muito. O Paços tornou-se um senhor clube” exclama. Monteiro deixou a sua marca nos anos que defendeu a camisola canarinha. Ainda junior saboreou a primeira subida da sua carreira, mas seria como senior que ajudaria a catapultar o Paços até à elite do futebol português. “ Foram momentos fantásticos. Sempre tivemos uma grande balneário , uma das chaves do sucesso. Na Divisão de honra o objetivo era não descer e acabamos por subir. “ Colegas foram às dezenas, mas há sempre alguns que ficam. Monteiro não hesita e enumera “José Mota, Moreira e o nosso barbas, o Quim” com um sorriso nostálgico.” Carlos Pinto actual técnico e Téofilo Costa, vice presidente do clube, foram alguns dos jovens formados no Paços com quem partilhou balneário, mas houve outros como “Armando Gomes e Adalberto.” Durante 13 anos fez do Paços a sua batalhar diária. “ Havia uma responsabilidade acrescida por sermos da casa. Sentíamos que nos exigiam mais e nós dávamos. Sem 100 fosse o limite nós dávamos 120.”
A história de Monteiro cruza-se com a do Paços e com nomes bem conhecidos do futebol português. O técnico recorda os ensinamentos dos técnicos Pimenta e Venancio – figuras impares no clube pacense – nas camadas jovens, elegendo Vitor Urbano e Vitor Oliveira, como os mais marcantes no seu percurso profissional. Mas a Mata Real ajudou a conceber muitos outros técnicos que viriam a singrar enquanto comandantes de homens e que foram colegas de Monteiro.Jaime Pacheco foi, tal como António Luz, também seu treinador e viria, como sabemos, a tocar o céu com o título de campeão nacional com o Boavista. José Mota foi outro que trocou as botas pela cartilha sem sair da casa do castor promovendo o regresso pacense à elite nacional. Paulo Sérgio foi outro dos colegas de Monteiro que depois de uma passagem fugaz enquanto jogador, viria a “pagar a dívida de gratidão” já como técnico. Rui Quinta, João Mário (adjunto de Carvalhal), Ricardo António, Tulipa e Agostinho Bento, treinador do Fafe, foram outros que tiveram a “honra de representar um clube que sempre foi sério, honesto, que pagava a tempo e horas e trabalhador.” Aqui confessa Monteiro “bebeu muito dos ensinamentos” que hoje transmite. Ressalvando que não conhece o interior do clube nos dias de hoje, Monteiro afirma que “ para continuar este trajecto de sucesso, de certeza que se mantem fiel a muitos destes princípios.”

Aos 30 anos saiu do seu clube. “Nessa altura era considerado velho” afirma com ironia. Uma saída que ainda hoje lhe enche o peito de dor. “ O meu contrato acabava e a nova direcção decidiu não renovar. Era um direito que tinham e eu não contesto. Mas acho que merecia pelo menos uma palavra, por tudo o que dei pelo clube.” A dor levou-o até ao clube rival, o Freamunde, onde iria anos mais tarde, levar a sério o incentivo de Jorge Regadas para seguir a carreira de treinador. “ Trabalhei com o Jorge Regadas cinco anos e se ainda sou treinador devo-o à forma aberta como me incentivou. “ Mas como vê o treinador Monteiro a carreira do novo reforço pacense? “ Essa é questão difícil. Tento sempre avaliá-lo como treinador e não como pai. Mas sinceramente penso que há um factor que pode ser , e tem sido até aqui, determinante na sua afirmação. O Pedro tem um carácter forte. É sabedor das suas potencialidades mas também humilde e sabe que a paciência é fundamental. Foi assim no Freamunde”, relembra sem se conter. “ Com o Carlos Pinto, no CNS, o Pedro era o quarto central do plantel. Era o seu primeiro ano de sénior. Soube esperar e terminou a temporada como titular absoluto. “ Ver o filho com a camisola que já foi sua é “ um orgulho enorme. O Paços é o meu clube e embora tenha saído magoado com algumas pessoas, ainda hoje é o clube que gosto e sigo atentamente.” Quis o destino que agora tenha menos tempo para acompanhar a carreira do filho, mas Monteiro sente que “o Pedro está bem encaminhado” e agora irá tentar dar maior atenção ao Rui. Com um brilho nos olhos, Monteiro explica que Rui é um médio defensivo que actua nos juniores B do Freamunde e que “tem qualidade para seguir a carreira do irmão.” Palavra de pai, aliás, de treinador…

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